quinta-feira, 24 de maio de 2007

Voltar a casa


O nosso desejo mais profundo é voltar a casa, voltar à nossa natureza original


Nascemos com a Mente de Buda não-nascida. Pertence-nos desde sempre, é intrínseca à nossa própria natureza. Tudo o que existe é uma manifestação desta Mente. Nem toda a gente compreende que a sua vida é uma expressão do Não-nascido, mas cada um de nós tenta experienciar esse estado mental natural. Estamos a voltar a casa.

A Mente de Buda não-nascida tem sido chamada de muitas formas – natureza de Buda, Verdadeiro Eu, verdadeira natureza, o absoluto, a Fonte – mas não há nome que a possa atingir ou descrever. Todos os nomes ficam aquém. Contudo, quando a experienciamos, vivemos um momento de reconhecimento. Saímos de casa mais cedo do que gostaríamos e com o tempo as experiências da vida afastaram-nos cada vez mais. Muitos anos passaram até compreendermos que nos perdemos.

Há muitas maneiras de voltar a casa. Só na meditação Zen, há muitas formas. Os estudantes do Zen geralmente aprendem práticas de meditação como concentrar-se na respiração ou num koan; alguns aprendem shikantaza. Todos estes métodos ensinam-nos a focar-nos e concentrar a mente. Contar as respirações é uma das formas mais fáceis de meditação, por isso muita gente começa por aí. O que há de espantoso com isso é que, embora este método seja muito simples, podemos percorrer todo o caminho e chegar a casa com a contagem da respiração. Assim, não há realmente entre as práticas que consideramos para principiantes e as mais avançadas. Mas diferentes formas de meditação requerem diferentes graus de concentração, portanto há vários níveis de dificuldade. Quando adquirimos experiência, vemos que todas as práticas partilham uma mesma essência: são ferramentas para experienciar tornar-se “um com” – um com a respiração, um com o koan, ou apenas sentar. Ser “um com” é a chave para voltar para casa.

Quando nos tornamos um com a respiração, compreendemos de repente que já voltámos a casa. Ao princípio pode durar um momento, mas nesse momento reconhecemos a nossa verdadeira natureza, o Não-nascido. Somos Um; não há distância entre nós e a nossa respiração. A dicotomia entre sujeito e objecto desaparece, portanto já não há um lugar para onde ir ou lugar onde chegar. Não há ir e vir. Estamos em casa.

O nosso maior desejo é voltar a casa, voltar à nossa natureza original. Mas esse desejo foi enterrado por outros desejos, esperanças, sonhos. Através da meditação aprendemos a distinguir a nossa lista de desejos, mas é um processo que requer tempo. Quando os desejos pelas coisas deste mundo começam a desvanecer-se, vemos que nunca satisfizeram a nossa fome básica, o desejo de realizar a Natureza de Buda.

A prática da meditação leva-nos a fazer uma descoberta extraordinária: fomos e sempre seremos a Mente de Buda não-nascida. E quando vemos as coisas na perspectiva dessa Mente, experienciamos a mais profunda verdade, a realidade absoluta. Compreendemos que a mente não é nada mais do que a Mente de Buda não-nascida. Não há nada para procurar, nada a ganhar. Mas perceber isto de uma forma intelectual não chega. O contentamento só virá ao termos a experiência da nossa completude, da nossa totalidade, e isto significa que cada um tem de realizar a verdade directamente. Se eu vos disser que sois completos e unos e simplesmente aceitardes isto, nunca compreendereis por vocês mesmos a vossa unidade intrínseca. A nossa própria pobreza não pode ser aliviada ao avaliar-nos um tesouro que pertence a outrem.

Na experiência de não dualidade, vemos com os nossos próprios olhos que todos os opostos são um. Podemos chamar-lhe mente ou não-mente, eu ou não-eu, Dharma ou Iluminação, mas a experiência é sempre a mesma. Esta é a única verdade a ser ensinada, por isso ao ouvirem a mesma coisa durante anos podem ficar como que adormecidos ou desatentos. Uma forma de dar lugar a novas percepções é usar vários opostos e verificar onde ficamos bloqueados.

Há opostos como homem e mulher, vida e morte, nirvana e samsara, e muitos mais. Talvez não tenhamos experimentado a unidade destas dualidades, embora possamos acreditar que são uma. Mas quando se trata dos opostos mais familiares, aqueles com que nos debatemos todos os dias, é quando surgem as dificuldades. Peguem na estupidez e na inteligência, por exemplo. Todos sabemos que não são a mesma coisa, certo? Há a inteligência e há a estupidez. Como podem ser uma? Qualquer dualidade que pareça óbvia e verdadeira pode ser usada neste jogo. Neste caso, considerem e explorem como é que a estupidez é a inteligência, e como a inteligência é estupidez. Então apliquem esta nova percepção a vocês mesmos. Agora, isto parece não assentar tão bem, especialmente se nos vemos como inteligentes.

Na verdade, nós, os estúpidos, somos os inteligentes, e os supostos inteligentes são os estúpidos. Quando afirmo o quanto isto é verdade alguns estudantes começam a procurar tijolos para me atirar. É estranho que possamos aceitar o que Dogen Zenji nos diz – que samsara é nirvana e nirvana é samsara e que o Buda é um ser sensível e um ser sensível é Buda – e contudo muito dificilmente aceitamos que a inteligência é estupidez. Por que é que é tão difícil? A diferença parece residir naquilo com que nos identificamos. Quando consideramos dualidades familiares como activo, preguiçoso, esperto e estúpido, os opostos são algo com que nos podemos relacionar. Muitos de nós identificam-se pessoalmente com a inteligência, mas não com estar desperto ou adormecido. Desde a infância que a sociedade nos ensina que a inteligência é uma característica pessoal basicamente fixa; trabalhamos muito para enterrar a nossa estupidez.

Para conseguir alguma coisa na prática do Zen, temos de nos tornarmos bastante estúpidos. Por que é que uma pessoa inteligente se sentaria a contar a respiração, sete horas por dia?


Genpo Roshi